Um normal nada normal

Por Heitor Augusto, programador-chefe do NICHO 54

E cá estamos oferendando ao nosso público a terceira mostra de filmes ao redor das vidas negras em menos de sete meses. No ano 2 da pandemia. Com exibições em uma plataforma de streaming desenvolvida exclusivamente para essas projeções. Parafraseando Narcisa, que loucura, não é mesmo?

Chegamos a este novembro construindo a terceira edição do nosso evento anual orientados por uma pergunta: para qual normal voltaremos? Essa interrogação atravessa os painéis de mercado do NICHO NOVEMBRO, as atividades de formação ao redor de preservação audiovisual e crítica e também o eixo curatorial.

Foram quase dez meses empregados na prospecção de filmes – pesquisa curatorial é um trabalho prazeroso, mas exigente e não necessariamente glamoroso. O resultado é uma seleção com obras exibidas e premiadas em festivais como BlackStar, Berlinale, Roterdã, Sundance, Vienna Shorts, Encontro de Cinema Negro Zózimul Bulbul, Recifest, IDFA, FestCurtasBH, Outfest Fusion, Curta Kinoforum, entre outros. Dezesseis filmes – seis longas e dez curtas –, todos convidados. Histórias negras centradas em relacionamentos afetivos, dilemas familiares, xenofobia, pandemia, migração, sexualidade, resistência ao colonialismo, jornadas tortuosas de crescimento, mobilização popular de mulheres.

A carta de intenções curatoriais da mostra do ano passado segue relevante para este ano: mantemos nossa aposta na pesquisa curatorial, em ultrapassar o mero gesto de “mostrar os melhores filmes da safra anual”, na atenção especial aos curtas-metragens e nas conversas entre as diásporas e o continente africano. Mais importante ainda, seguimos vislumbrando o nosso evento como um recorte cirúrgico e propositivo na produção recente.

Vamos falar dos filmes?

Nosso filme de abertura é Libório (Liborio, Festival de Roterdã), ficção oriunda da República Dominicana que marca a estreia de Nino Martínez Sosa na direção de longa-metragem. Pense na mítica ao redor de Antônio Conselheiro e um certo imaginário glauberiano sobre nação presente na Trilogia da Terra. Agora racialize essas duas imagens, transporte-as para o Caribe, volte para o início do século 20 e insira a ameaça estadunidense. Chegamos em Libório.

No sábado, 6, oferecemos o nosso primeiro programa de curtas, intitulado Crescer. Avizinhamos filmes que de alguma forma apresentam jornadas de amadurecimento, desde a infância até o início da idade adulta. O périplo pode durar apenas uma manhã numa megaigreja de Lagos (Lagarto, Prêmio do Júri no Festival de Sundance); dias que se embaralham no começo-fim de uma relação num apartamento em Toronto (Noor & Layla, Outfest Fusion); o cotidiano interrompido pela violência na vida de filha, namorada e pai num bairro da periferia de São Paulo (Como respirar fora d’água, Prêmio de Público no Curta Kinoforum); o tempo suspenso e musicado que antecede a partida de uma jovem mulher Garífuna da Guatemala (Alma do mar, imagineNATIVE); e as tardes ensolaradas que assistem o crescer do amor entre dois adolescentes (Meninos Rimam, FestCurtasBH).

No domingo, 7, dia que tende a ser o único intervalo de descanso na semana de uma pessoa trabalhadora, exibimos um documentário que traz o trabalho e a mobilização de mulheres para o centro. Ambientado no Sertão do Pajeú, Pernambuco, O bem virá (Mostra Pajeú de Cinema) investiga a trajetória de trabalhadoras que abriram caminhos de vida durante períodos de estiagem na região. Uma única foto dos anos 1980 serve como portal para a investigação da diretora Uilma Queiroz.

Na segunda, 8, voltamos a Lagos, desta vez para acompanhar a história de um homem de meia idade e uma jovem adulta. Anônimos, ambos buscam migrar para diferentes países da Europa. O desenvolvimento paciente do roteiro e o toque delicado da direção de Arie e Chuko Esiri tornam Eyimofe: Esse é meu desejo (Berlinale) uma narrativa sensível e empática sobre o encontro ruidoso entre dois personagens com o país que habitam e também com o Norte Global.

Reservamos a terça, 9, como um momento para a digestão desse primeiro bloco da programação. Não há estreias nesse dia, então se preparem para recarregar as energias e seguir com a segunda parte do NICHO NOVEMBRO.

Na quarta, 10, apresentamos aquele que é, quiçá, o filme mais emocionante da programação. Entre fogo e água (Entre fuego y agua, IDFA) é uma história dilacerante sobre identidade. Um jovem negro, o único no seio de uma comunidade do povo indígena Quillasinga, na Colômbia, passa a fazer uma “simples” pergunta: quem sou eu e quais são as minhas raízes? O documentário de Viviana Gómez Echeverry e Anton Wenzel segue a busca de Camilo por respostas.

Na quinta, 11, oferecemos o segundo programa de curtas, intitulado Refúgio. Avizinhamos filmes cujos personagens (re)visitam a ideia de lar. Seja por meio de uma viagem de volta para o território de onde se veio (Novo Rio, CineOP) ou retornando para o íntimo de uma comunidade adotada que simultaneamente liberta e aprisiona (Five Tiger, Festival de Sundance). Outras vezes, é necessário inventar uma nova casa para habitar, seja mantendo a sua própria dignidade frente à injúria (Você tem olhos tristes, Melhor Ator e Montagem no Festival de Gramado); cravando uma fenda onde semelhantes compartilham um espaço seguro (Afetadas, Recifest); ou partindo para a mata, onde os caminhos de ancestrais escravizados e gays em fuga se encontram em Aquilombados (Los Cimarrones, Rencontres de Toulouse).

Na sexta, 12, apresentamos quiçá o filme que mais causará indignação no público. Apátrida (Stateless, Melhor Documentário do BlackStar) joga luz em uma história pouco conhecida entre nós, brasileiros: a tensão racial e xenófoba da República Dominicana frente ao Haiti, dois países que dividem a mesma ilha, Hispaniola. O documentário de Michèle Stephenson segue o cotidiano de luta de Rosa Iris, uma advogada engajada no combate à retirada arbitrária da cidadania de dominicanos com ascendência haitiana.

No sábado, 13, temos o nosso filme de encerramento. Sentimos a necessidade de terminar a jornada do NICHO NOVEMBRO 2021 com uma obra que trouxesse de maneira mais direta a vida durante o isolamento da pandemia. O dia da posse (Olhar de Cinema) se equilibra entre o documentário e a autoficção. Assistimos a Brendo, um jovem estudante de direito que chegou à idade adulta num Brasil em que Bolsonaro já era uma realidade. A personagem envolve-se num jogo de observação e autonarrativa com a câmera de Allan Ribeiro, o diretor. A ação se passa dentro de um apartamento. O mundo lá fora é representado por janelas. Estamos num Janela Indiscreta 3.0: ao mesmo tempo que mira os outros, Brendo tem a consciência de que está negociando a maneira em que nós, espectadores, percebemos sua persona.

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Por fim, é importante lembrá-los de que o NICHO NOVEMBRO em sua dimensão mostra de filmes encaixa-se no arco do Eixo Curatorial do instituto. Ou seja, não está isolado do que fizemos nos outros meses. Antes do nosso evento anual, oferecemos outras duas mostras: “América Negra: Conversas Entre as Negritudes Latino-americanas”, que descentralizou os EUA como referência de imagens negras, e “Insurreição!”, retrospectiva que ampliou as maneiras que compreendemos resistência. 

Assim, o NICHO NOVEMBRO 2021 representa a extensão de uma prática curatorial que acredita na força da reconstrução de imaginários e na humanidade plena do sujeito negro. Apostamos no trabalho contínuo e na construção de um espaço onde a nossa comunidade possa pertencer, tendo suas espectatorialidades consideradas importantes e dignas.

Como programador-chefe do NICHO 54, sinto o NICHO NOVEMBRO 2021 como o último capítulo de uma jornada curatorial ininterrupta, pois nos meses em que não exibimos filmes estávamos, na verdade, refletindo sobre os próximos programas ou prospectando produções. Desde maio temos trazido obras inéditas no Brasil ou resgatado realizações praticamente desconhecidas; promovemos conversas delicadas e desconfortáveis e contribuímos para a complexificação dos entendimentos de Cinema Negro; aliamos programação de filmes com atividades pedagógicas que propõem diálogos para além do audiovisual. 

Apropriem-se do NICHO NOVEMBRO. Ele é feito por nós e para nós, pessoas pretas.

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FICHA TÉCNICA

Concepção – Edição 2021: Fernanda Lomba, Heitor Augusto
Curadoria Mostra de Filmes: Heitor Augusto
Curadoria Painéis de Mercado: Fernanda Lomba
Produção executiva, coordenação de produção: Fernanda Lomba
Produção, coordenação intereixos: Karen Almeida
Produção, assistência de captação: João Barbosa
Produção de cópias e de programação: Matheus Pereira
Identidade visual: Lucas de Britto
Assistência de design: Ícaro Chagas
Assessoria de imprensa: Cristiano Filiciano
Tradução e legendagem: Aline Ferreira, Andrés Schaffer, Bettina Winkler, Juan Rodrigues, Shay Santana
Financeiro: Fernando Rodrigues
Assessoria Jurídica: contraAto (Mariana Garcia, Luiza Carneiro)
Desenvolvimento da SALA 54: Andrei Thomaz, Filipe Davi
Revisão: Maíra Corrêa Machado

Memórias Pretas em Movimento: Oficina de Preservação Audiovisual

Correalização e cocuradoria: NICHO 54 e Instituto Moreira Salles (IMS)
Ministrantes: Daniela Giovana Siqueira, Gabriel Martins, Hernani Heffner, Keila Serruya Sankofa, Laura Bezerra, Luiz A. Santana da Silva, Maurício Lima, Maya Cade, Terri Francis

Perspectivas Pretas: Oficina de Crítica Audiovisual

NICHO 54 Convida: INDETERMINAÇÕES 
Equipe INDETERMINAÇÕES: Gabriel Araújo, Gabriel Coêlho, Lorenna Rocha

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Realização:
NICHO 54, Spcine e Secretaria de Cultura e Fundo Goethe | Hilfsfonds

Apoio institucional:
Projeto Paradiso, Estúdios Quanta e Compasso Coolab

Agradecimentos da curadoria: 

Akinola Davies, Allan Ribeiro, Amanda Carneiro, Bethany Davies, Embaúba Filmes, Inuka Bacote-Capiga, Márcia Vaz, Michèle Stephenson, National Film Board of Canada, Nehad Khader, Shant Joshi, Tatian Monassa, Themba Bhebhe