CINEMATECA NEGRA (Prefácio)

Quando não souber para onde ir,
olhe para trás e saiba pelo menos de onde você vem. 
(Provérbio africano)


O audiovisual é um espaço determinante na nossa construção nacional e coletiva de imaginários, pois nos permite fabular e criar ferramentas de transformação social em muitas dimensões e possibilidades. Olhar o passado é uma estratégia de existência para povos negros, para a população afro-brasileira, uma vez que, quando não sabemos para onde ir, é importante que nós olhemos para trás e saibamos, pelo menos, de onde viemos. Preservar as memórias das pessoas que vieram antes de nós e celebrar o imenso legado de nossos e nossas ancestrais é também um fazer político impregnado nas políticas culturais de nosso país para que nós tenhamos consciência de onde viemos e possamos garantir futuros mais justos para as novas gerações.

Nesse sentido, o projeto da Cinemateca Negra é uma iniciativa importante que se soma à atualização que o mundo e o Brasil vêm passando de ressignificar, salvaguardar e celebrar o passado e o legado de produções cinematográficas, especialmente de realizações negras, num fazer cultural como justiça social e reparação histórica.

O projeto Cinemateca Negra vai ao encontro do que estamos mobilizando e realizando de forma contundente e assertiva no MinC: o resgate de nosso passado, o fortalecimento e a preservação de nossa memória nacional cultural, entendendo a cultura e a arte como ferramentas pedagógicas de resistência e com enorme potencial e força de modificação social. A cultura é, assim, vista como fazedora e promotora de justiça social.

Como profissional das artes, fui e continuo sendo inspirada por grandes artistas que me precederam. Só pude ser influenciada por eles porque a informação estava disponível e acessível. O mapeamento feito pela Cinemateca Negra permitirá que a sociedade brasileira tenha, portanto, conhecimento da nossa história e que a atual e a futura geração de profissionais, pesquisadores e estudantes negros tenham as referências completas de como a história do cinema negro foi escrita no Brasil.

É a partir desse melhor entendimento do passado que poderemos construir um cinema que valorize a diversidade de imagens, de representações, de existências negras, em que nós, pessoas negras, sejamos desenhadas a partir de perspectivas plurais; um audiovisual que fortaleça imaginários complexos e diversos e o reconhecimento histórico-cultural do audiovisual negro no Brasil. Trata-se de reconhecer as várias subjetividades negras nas telas e atrás das telas de forma igualitária, permitindo que as pessoas negras ocupem também espaços de decisão, criação e concepção.

Outra importante contribuição da Cinemateca Negra é apoiar educadores na curadoria de conteúdos audiovisuaispara uma concretização efetiva das leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas, auxiliando na construção de espaços educativos que promovam práticas antirracistas e uma mirada mais crítica e profunda sobre o cinema negro brasileiro como espaço de aquilombamento e resistência.

Por fim, a Cinemateca Negra está em diálogo direto com o trabalho da Cinemateca Brasileira, complementando o trabalho que vem sendo desenvolvido de articulação e implementação de práticas e políticas de preservação. Essas são iniciativas caras e necessárias para a manutenção da memória brasileira do cinema e como meio de acesso e divulgação, que aumentam a visibilidade dessas produções e que expandem o cenário cinematográfico nacional a partir de políticas públicas e ações que promovem igualdade racial.

Meus parabéns ao Instituto NICHO 54 e vida longa à Cinemateca Negra. Viva e vida ao cinema preto brasileiro! Um salve aos nossos ancestrais: Adélia Sampaio, Ruth de Souza, Léa Garcia, Zózimo Bulbul e todos os que nos precederam.


Margareth Menezes
Ministra da Cultura

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>>> Para acessar o artigo da Revista Bravo! com divulgação preliminar de dados da pesquisa: clique aqui.